Céu nublado em preto e branco

S

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Parte 1

Capítulo 2

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Se a intenção de Bolsonaro era descansar e desfocar o recente desempenho sexual, teria sido melhor se manter acordado. Fora apenas duas horas de sono, quase todas preenchidas por pesadelos. Dormiu de costas para a esposa, sem lhe dirigir qualquer palavra antes de apagar. Sem demora, acordou no sonho, ainda deitado na cama. Sabia que ela ainda estava ao seu lado, mas não tinha coragem de encará-la, mesmo na escuridão do quarto. No cérebro adormecido, os motivos ainda estavam imprecisos, mas a sensação de fracasso estava preservada, como se fosse inerente à sua existência.

Levantou-se com cautela e deu três passos cambaleantes que pareceram dez. A curiosidade prevaleceu sobre o medo e, de esguelha, olhou por cima do ombro e viu sobre a cama a figura distante com a coberta cobrindo a cabeça e os pés para fora até os tornozelos.

Quando voltou a olhar para frente, encontrou-se dentro do closet, cercado de camisetas pretas e com um terno completo pendurado na sua frente. Era assim que Michelle gostava de vê-lo e, sem pensar duas vezes, vestiu o traje todo, incluindo a com desenhos de fuzis, amarrada em tempo recorde.

Ao se virar, já estava a um passo da beirada da cama. Deitou-se antes de se lembrar de tirar os sapatos. Também não se lembrava de tê-los colocado. A um corpo de distância, Michelle estava estirada sem nenhum sinal de vida, como um cadáver esquecido que a natureza tratou de encobrir. Não esboçou nenhuma reação mesmo após Bolsonaro puxar e jogar a coberta para fora da cama.

Com os olhos ainda pouco adaptados à escuridão, percebeu que ela estava vestida com um tecido grosso, cobrindo quase o corpo inteiro como se fosse um roupão. Por um instante, hesitou em tocá-la, ainda inseguro de suas capacidades em satisfazê-la. Mulheres guardam para si o segredo de como fazê-las gozar. Se Jair não conseguia, em grande medida era por culpa delas.

Silhueta da cabeça do genocida

O prazer dele tinha pouca dependência das vontades dela.

Só precisava sentir a textura da pele e a maciez da carne. Contanto que não estivesse fria, sua completa ausência de movimentos não o incomodava. Começava a se sentir excitado, ganhando mais confiança. O primeiro toque foi no bumbum e na coxa. Não houve reação. Em seguida, seus dedos desceram pelo meio das costas da gola até a cintura, onde sentiu uma faixa bem apertada ao redor dela. Puxou-a com força, como se arrastasse uma mala para um ano de viagem.

Ela despertou com um salto. Uma arremetida precisa de um animal noturno e faminto. Rolou de lado na cama e logo estava por cima, de joelhos, com o corpo dele entre as pernas. Pegou-o por dentro com mãos embrutecidas que se agarraram à lapela do terno. Ela o trouxe para mais perto com um empuxo para cima. Ele sentiu seu pescoço chacoalhar, estranhando a força da esposa. A visão opaca nada podia revelar de sua expressão.

Estaria tomada por intenso desejo ou intensa raiva?

Silhueta do tronco de Michelle

Em seguida, Michelle o empurrou, jogando seu peso para frente. Foi como se as costas de Jair fossem ao encontro do chão. No susto ou na dor, percebeu haver algo errado. Tentou se desvencilhar, mas teve um dos braços pregados ao colchão pelo peso do joelho dela; o outro estava imobilizado e pressionado contra o próprio peito e a garganta. Sem entender nada, foi tomado pelo desespero. Batia as pernas em ritmo de afogamento, como duas baquetas na caixa de uma bateria. Da cintura para cima, não conseguia movimentar nem mesmo as cordas vocais.

Se era um pesadelo, queria acordar. Era a hora de acordar! Estava com tanto medo! Oh, Deus, me tire daqui! Seu corpo cada vez mais pressionado contra o colchão, o medo escalando até se converter em pavor. Da boca não saía grito nenhum e nem mesmo o ar que sentia estar em falta. Parou de se debater quando o medo alcançou a escala de horror sobre-humano, paralisante, tão logo percebeu que aquela pessoa não era Michelle.

- Quem é você? - pronunciada com a força de um grito, a pergunta saiu como um murmúrio plangente.

- Ora, Unicórnio, foi tão fácil te imobilizar. Quem mais poderia ser?

Teve certeza de que estava derrotado quando uma luz nasceu e morreu como um flash de câmera, iluminando o esgar da figura hedionda. Deixou um registro-resgate marcado no presidente, antes que ele fosse capaz de se atirar para fora do pesadelo.

Militares

Eleições

Motociata

Gayzismo

Privatização

Bandido

Impeachment

Anitta

Família

Mamata

Nióbio

Cristão

Quilombola

Golpe

Venezuela

Trator

1964

General

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Lula

Nordestinos

Corrupção

PM

Ustra

Impotência

Inflação

Evangélico

Gênero

Gripezinha

Garimpo

Nazismo

Pastores

Pedofilia

Hemorroida

Armas

Facada

Merda

Tortura

Doc 00004691 - 11 março de 1977

Por decreto do presidente Jair Messias Bolsonaro, este documento está sob sigilo de 100 anos.

Militares autorizados podem acessar o documento, inserindo a senha no campo abaixo.

Dica de senha:
Ano da revolução

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Durante quatro anos, o sargento Aristides foi instrutor de judô de Jair Bolsonaro na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN). Não se tratava de um aluno excepcional, mas com muito esforço e dedicação, ficou acima da média. Tinha dois treinos semanais em grupo e um sozinho com o professor. O treinamento adicional saía de seu próprio bolso, porque estava determinado a conquistar uma medalha na 26ª Olimpíada Acadêmica da AMAN. Nas três edições anteriores, não subiu ao pódio uma única vez. Nas disputas de pentatlo militar e judô, ganhara apenas mais confiança em sua mediocridade. Nunca fora reconhecido por suas capacidades cognitivas e interpessoais - neste caso, até se dedicar à carreira política -, restando-lhe apostar tudo nas atividades esportivas.

Suposta imagem do sargento Aristides

Sargento Aristides

Assim como fora o último a saber das traições de Rogéria, sua então futura esposa, Jair fora o último a descobrir a orientação sexual do sargento Aristides. Um sentimento de nojo se espalhou pelo corpo tantas vezes pressionado contra o tatame pelo peso do instrutor de judô. Passou a considerar todos os golpes suspeitos. Tentativas de derrubá-lo de costas para depois montar sobre ele de frente. Quando menos esperasse, o instrutor tentaria lhe dar um beijo na boca.

Aquela aberração imunda montava em cima de mim, pensou Bolsonaro.

Aristides não entendeu quando Jair comunicou que abandonaria os treinamentos poucas semanas antes das competições. Tudo bem que não fosse o favorito ao pódio, estivesse longe de ser o aluno predileto e mais distante ainda de se encaixar no perfil de homem que lhe interessava. A pequena infelicidade do instrutor foi perder a renda extra, tradicionalmente convertida em apostas no jogo do bicho e nas partidas de truco. Questionado sobre o motivo da desistência, Jair respondeu dando de ombros:

- Só precisava aprender a me defender - ele se virou para ir embora, mas poucos passos depois, voltou a mirar o instrutor. - E já adianto que consigo derrubar um cara de várias maneiras, se vier pra cima de mim - concluiu com tom de leve ameaça e de desconsideração com a hierarquia militar.

Suposta imagem do sargento Aristides

Sargento Aristides

Passados alguns dias, Bolsonaro estava comendo risoles e tomando tubaína sozinho na cantina da AMAN, quando um de seus ex-colegas de judô se sentou à mesa para lhe perguntar por que havia abandonado os treinos.

- Você não sabe? - perguntou com um sorriso satisfeito por espalhar a fofoca. - O sargento Aristides é um baita de um viadão!

Ele fez um gesto desmunhecando a mão direita, deu tapas no tampo da mesa e soltou uma risada alta o suficiente para outras pessoas se virarem para ele.

- Já sei, e daí?

- Como assim, e daí? - disparou um olhar de ojeriza para o colega - Você só pode ser bicha também, pra aceitar aquele marmanjo peludo, subindo em você para te comer que nem uma mulherzinha. Eu é que não vou ser uma das noivinhas do Aristides.

Não por acaso, o sargento se aproximava de Jair pelas costas quando interceptou a última parte da conversa.

Suposta imagem do sargento Aristides

Sargento Aristides

- O que foi que você disse, cadete?

Bolsonaro se levantou com um susto da cadeira e, com os olhos baixos mirando o coturno de Aristides, desembaralhava as ideias à procura de uma resposta convincente.

- Peraí, cavalão, não vai arregar agora, né? - provocou o colega. - Duvido que você repete o que acabou de me dizer.

Foi o ensejo para deixá-lo nervoso e descontrolado. Absolutamente ninguém deveria duvidar de sua coragem. Se fosse preciso, não tinha medo de proferir verdades na cara de alguém. Se fosse preciso, sairia na porrada se não gostassem do que ouviram. Muito em breve seria um soldado a serviço da pátria, disposto a entregar a vida em defesa da liberdade… aliás - e que isso fique bem claro -, de algumas liberdades. Por exemplo, a liberdade de ser homofóbico, de não aceitar relacionamentos afetivos entre pessoas do mesmo sexo.

- Falo de novo sim, falo pra todo mundo aqui! - gritou abrindo os braços chamando pela plateia. Virou-se, apontando o dedo para o sargento, e continuou com a boca arregaçada a lançar perdigotos - Eu sei que você é um viado de merda! E já vou logo avisando: se encostar mais uma vez essas mãos sujas em mim, eu…

Suposta imagem do sargento Aristides

Sargento Aristides

A ameaça ficou pelo caminho. Foi escanteada para dar vazão à violência do instrutor gay, repreendendo, pela primeira vez, uma expressão de homofobia. Seu punho foi em cheio no nariz de Bolsonaro. Como um bêbado, ele titubeou algumas vezes antes de despencar no chão e de enxergar o mundo desfocado girando ao seu redor. Ao abrir a boca, sentiu o gosto ferroso de sangue que escorria pelo nariz esmigalhado. Cuspiu de lado e quase vomitou quando o peso de um joelho pressionou sua barriga. Mesmo com os sentidos desalinhados, chegou a uma constatação inequívoca: mais uma vez estava por baixo do sargento Aristides.

As costas se afastaram do chão, ao ser puxado pela gola da farda. A cabeça grande pendia para trás mirando as luzes do teto. O som de uma voz embaixo d’água se misturava a um zumbido constante. À medida que chacoalhavam seu corpo, conseguia extrair palavras na confusão de ruídos: “cavalão”, “desgraçado”, “outro soco”, “sangue”, “vivo”, “foder”, “sargento”, “pena”, “já chega!”. Ouviu um último baque. Sua cabeça contra o piso de cerâmica. Fechou os olhos e apagou por um instante.

Primeiro o ar preencheu por completo a cavidade torácica para depois ele perceber, já com os olhos abertos, que não havia mais ninguém em cima dele. A dor era mais intensa na parte de trás da cabeça. As narinas estavam entupidas de sangue e uma dor latente fustigava o nariz inchado à menor contração dos músculos faciais. Foi levantado pelos braços, mal se sustentando de pé, e arrastado até a enfermaria pelos colegas.

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Sargento Aristides

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Sargento Aristides

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